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terça-feira, 21 de junho de 2011

Meia-Noite Em Paris




   A sinopse do último filme de Woody Allen “Meia-Noite Em Paris” (Midnight in Paris, 2011), não deixa pista alguma a cerca da bela surpresa que nos espera. Com uma extensa carreira, de mais de quarenta anos e uma dinâmica produção, com lançamentos anuais, o próprio Woody Allen diz não se considerar um artista, pois afirma não ter a profundidade e a substância requeridas, principalmente se seu trabalho for comparado com nomes como Bergman, Fellini, Buñuel ou Kurosawa, por exemplo. Mas afirma saber fazer filmes, sendo que alguns deles saem bons, outros saem melhores e alguns piores, e quando o assunto é a longevidade de sua carreira, afirma apenas ter sorte.

   “Meia-Noite Em Paris” nos conquista mesmo antes dos cinco minutos de projeção, mostrando uma Paris encantadora seja sob sol, chuva ou ao cair da noite, acompanhada ainda de uma trilha sonora tipicamente parisiense. E como se ainda fosse possível, o filme só cresce e nos envolve de maneira que os cem minutos de duração do longa, passam de maneira tão agradável que deixam um gostinho de quero mais. E aos amantes de arte em geral, sobretudo cinema e literatura, fica a certeza da competência de Woody Allen, ao escrever e dirigir um filme encantador e cheio de surpresas, que só nos deixam mais ansiosos para as cenas que se seguem.
     O longa nos apresenta a Gil Pender, vivido por Owen Wilson, ator pouco celebrado pelos fãs de Woody Allen, mesmo com sua já fidelizada parceria com o diretor Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums; O Fantástico Senhor Raposo), um dos grandes nomes do cinema atual norte-americano. Em “Meia-Noite Em Paris”, Owen Wilson tem a responsabilidade de desenvolver o já consagrado personagem dos filmes de Woody Allen, antes interpretado pelo próprio. E Owen Wilson não decepciona e nos coloca diante do escritor frustrado - porém mais contido, pouco tagarela - fascinado pela cidade de Paris, sobretudo quando chove, para desgosto de sua noiva Inez (Rachel McAdams) que de maneira alguma pensa em deixa Nova York para viver em Paris, como deseja Gil.
     Após uma longa seqüência de cortes que nos permitem passear por lugares encantadores da cidade de Paris, Woody Allen nos coloca diante da paisagem retratada nas deslumbrantes pinturas de Monet e Gil visita ainda por duas vezes a escultura em bronze “O Pensador” de Rodin. Talvez por se identificar com uma das esculturas mais famosas do mundo, que pretende retratar um homem em meditação que luta contra uma poderosa força interna. E como em um conto de fadas as avessas, após a meia-noite, Gil pode reviver a Paris da década de 1920, encontrando figuras as quais admira como os escritores Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e sua esposa Zelda Fitzgerald, o músico Cole Porter, os surrealistas Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray, o pintor Pablo Picasso e sua musa e amante Adriana (Marion Cotillard), ex-amante dos pintores Modgliani e Braque, diga-se de passagem.
    Gil logo se vê encantado pela bela Adriana e busca formas de conquistá-la. Adriana por sua vez, é fascinada pela Belle Epóque, e quando ambos retornam para 1890, encontrando figuras como T.S. Eliot e Toulouse Lautrec, Adriana se vê tão encantada que decide que ali deseja permanecer. Todo deslumbre anterior é questionado a partir da bela constatação sobre a insatisfação das pessoas, sobretudo os jovens, com sua própria geração. E em meio à moda vintage, retrô, kitsch... mas também de maneira bastante otimista, Woody Allen mais uma vez nos faz refletir sobre nós mesmos. Com uma fotografia deslumbrante, uma trilha sonora impecável, como já é de praxe na rica filmografia de Woody Allen, e um elenco afiado e completamente entrosado, Woody Allen nos permite sonhar e a desejar infinitamente uma meia-noite em Paris como as de Gil Pender, mas também nos faz reconhecer que a realidade pode ser igualmente maravilhosa.


Salma Nogueira.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Sonho de Cassandra

   Em seu terceiro filme produzido em Londres, Woody Allen reafirma e ao mesmo tempo inova, seu peculiar estilo cinematográfico, aprimorado a cada novo filme de seus mais de quarenta anos de carreira. Reafirma quando nos apresenta a personagens extremamente bem desenvolvidos e que no caso desse filme, apresentam total entrosamento ao desenvolver personagens complexos. Reafirma ainda, ao colocar como plano de fundo a bela cidade de Londres, o filme é basicamente feito em locações externas, acompanhado de uma trilha sonora que não deixa a desejar, bem ao estilo Woody Allen. Mas desde “Scoop – O Grande Furo” (2006), primeiro filme rodado em Londres e último filme no qual Woody Allen atuou, mesmo com o ar cômico de seu personagem habitual, já podemos sentir um ar sombrio que tem rondado seus filmes desde então.
    Com uma filmografia tão extensa, Woody Allen se reinventa a cada novo filme e tem a total liberdade de experimentar e ousar o quanto quiser, poucos tem essa vantagem, e ele sabe utilizá-la muito bem, isso é inegável. A seqüência “Match Point” (2005), “O Sonho de Cassandra” (2007) e “Vicky Cristina Barcelona” (2008), são filmes com extrema carga emocional, e no que diz respeito a construção de personagens, Woody Allen é mestre. Já em seus dois últimos filmes, “Tudo Pode Dar Certo” (2009) e “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (2010), o ar sombrio que rondava seus filmes desde seu primeiro longa rodado em Londres, dá lugar a um humor leve e delicado, presente no cotidiano de personagens, que de uma maneira ou de outra, buscam a felicidade, querem acertar, aprender com os erros, são como nós, espectadores.
   A obra em questão nos coloca diante dos irmãos Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell), os quais unindo suas economias e a longas prestações, logram adquirir um barco de segunda mão, o qual denominam aleatoriamente de “O Sonho de Cassandra”, que simbolicamente nos remete ao mito grego de Cassandra, a mulher que recebeu o dom de prever o futuro ao mesmo tempo em que é castigada com infelicidade de que ninguém jamais acreditaria em seus presságios. Os irmãos tem objetivos e estilos de vida distintos, sendo que Ian ajuda o pai (John Benfield) a administrar o restaurante da família, mas sonha alto, sempre almejando carros de luxo, viagens e ambiciosos investimentos, tudo ganha uma  dimensão ainda maior quando Ian conhece a bela atriz iniciante Angela Stark (Hayley Atwell). Já Terry, trabalha em uma oficina mecânica e cultiva modestos sonhos ao lado da namorada Kate (Sally Wawkins), mas paralelo a isso, Terry é viciado em jogos de azar, sendo sua sorte, visivelmente instável. 
    Mesmo com todas as diferenças e a seu modo, os irmãos padecem do mesmo mal, querem mais do que podem ter. E isso se agrava à medida que Terry perde o controle sobre o vício do jogo e Ian deixa-se envolver cada vez mais por Angela. Como única saída os irmão buscam a ajuda do bem sucedido tio Howard (Tom Wilkinson), que de tão mencionado até nos remete ao filme "Meu Tio da América" (Alain Resnais, 1980), parecendo esse mais um ideal, uma utopia do que um ser real de fato. Tão real que dá rumos significativos e perturbadores a vida dos irmãos Ian e Terry.
    Obtendo sucesso de maneira ilegal, Howard teme ser desmascarado e sentindo-se ameaçado, em troca da ajuda financeira proposta pelos sobrinhos, Howard pede que esses eliminem Martin Burns (Philip Davis), o sócio que ameaça sua credibilidade, frente aos negócios. É então que Woody Allen começa a questionar os conceitos de moral das personagens e os nossos próprios, aliando isso à aceleração rítmica do filme. E como Terry diz ao irmão:  "Isso é um caminho sem volta". Os caminhos são distintos e irreversíveis de fato, o que nos leva a um desfecho de certa forma, sombrio e pessimista, mas também único e inesperado. É cinema, é Woody Allen e só isso já são pré-requisitos para não esperar nada menos que um ótimo filme.

Salma Nogueira.
    

 *Texto dedicado a Samy Twist.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desconstruindo Harry


    
  

   Com forte teor surrealista “Desconstruindo Harry” (Desconstructing Harry) de 1997 é mais uma obra memorável na brilhante carreira de Woody Allen. Filme que deu ao cineasta sua décima terceira indicação ao Oscar de melhor roteiro original, mas que naquele ano acabou perdendo o título para o filme “Gênio Indomável”. Woody Allen mais uma vez dá um show de direção e interpretação - isso, claro, para os fãs do judeu tagarela, hipocondríaco, intelectual inseguro, que marca sua carreira como ator em seus filmes - mas o que dá o ar de genialidade a obra, é mesmo o roteiro, o que justifica a indicação.
   Harry, interpretado pelo próprio Woody Allen, é um escritor bem sucedido, que utiliza os acontecimentos de sua própria vida e conseqüentemente das pessoas que vivenciaram tais acontecimentos com ele, como “inspiração” para a construção das histórias de seus livros. Porém, além do exagero empregado em algumas passagens das histórias desenvolvidas por ele, em comparação ao episódio de sua vida que a inspirou, a diferença entre a ficção e realidade dos fatos, se dá pela simples troca do nome das personagens, o que é facilmente detectado pelas pessoas que tem algum conhecimento dos fatos reais.
    Com um elenco crescente de celebridades que nos surpreendem a todo o momento, como Elizabeth Shue, Billy Cristal, Tobey Maguire, Demi Moore, Stanley Tucci, entre outros, Woody Allen cria uma história fantástica, misturando realidade e ficção, colocando os personagens reais que inspiraram as passagens de seus livros de frente com as personagens fictícias, ao relembrar o que aconteceu de fato em sua vida e por vezes deixa-se envolver por acontecimentos surreais que acometem seus personagens, como o caso o homem que fica embaçado, interpretado por Robin Williams. Harry em meio a um bloqueio criativo, ainda busca uma companhia para uma homenagem que ele deveria receber no colégio do qual já fora expulso.
    Woody Allen visivelmente consciente e à vontade, brinca com um roteiro encantador que nos permite visualizar o improvável, o encontro entre o criador e a criatura. Harry, o criador, um ser extremamente inseguro e perturbado ao se deparando com todo o mal que pode de fato ter causado as pessoas que inspiraram suas obras, as quais o colocam de frente a personagens extremamente conscientes e maduros, que na verdade, são o próprio Harry. Um Harry talvez, perdido em seu inconsciente. “Desconstruindo Harry”, que na época de seu lançamento, não foi bem visto pela crítica, é uma obra para ser admirada e revista sempre, de um humor ácido e de constantes reflexões sobre morte, sexo, religião... Temas recorrentes na admirável e diversificada carreira de Woody Allen.
      


 Salma Nogueira.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Manhattan


 
    "Manhattan", de Woody Allen, é um filme de difícil definição, a começar pelo gênero do filme, seria uma comédia romântica, uma crônica, um drama... "Manhattan" é tudo isso e um pouquinho mais. Manhattan é Woody Allen, e isso já nos dá uma boa noção do que esperar do filme, tanto para quem ama Woody Allen quando para quem o odeia, porque quando se trata de Woody Allen, não dá para ficar indiferente.
    Quem foi ao delírio com “Annie Hall” (meu caso), pelo menos em um primeiro momento, pode ter estranhado o estilo do filme. Mas os que detestaram o tal “noivo neurótico” de Woody Allen, personagem comicamente chato recorrente na filmografia do diretor, anterior a "Manhattan", começou a ver seus filmes com mais respeito, digamos assim.
    "Manhattan" nos indica uma fase de transição do estilo Woody Allen de fazer cinema, onde aos poucos abandona o intelectual tagarela que o consagrou e avança para uma fase mais densa, com um humor sem piadas e neuroses, tendendo a uma análise da condição humana, seguindo os passos de seu grande ídolo, o diretor sueco Ingmar Bergman (O Sétimo Selo, Gritos e Sussurros).
     O filme nos apresenta a Isaac Davis (Woody Allen) e suas relações amorosas. A ex-mulher, Jill (Meryl Streep), que o trocou por outra mulher e ameaça escrever um livro, que entre outras coisas, revela a relação que teve com Isaac. A namorada de Isaac, Tracy (Mariel Hemingway), uma garota de 17 anos. A quem Isaac não esconde o enorme carinho e admiração, mas não acredita nessa relação, devido a pouca idade da menina. E por fim, Mary Walkie (Diane Keaton), ex-amante do melhor amigo de Isaac, Yale (Michael Murphy). Logo que conhece Mary, Isaac a odeia, mas logo ambos se apaixonam.
      O próprio Woody Allen não gostou inicialmente do filme em questão, chegando a oferecer-se para dirigir outro filme de graça para a Universal (estúdio que bancou a obra). Mais do que gostar ou não, Manhattan nos mostra a ilha que dá nome ao filme, de uma maneira bela, com uma fotografia nostalgicamente em preto e branco, dirigida por Gordon Wilis. Cada ponto turístico mostrado se ajusta perfeitamente a história, o que dá uma tradução visual ao belíssimo roteiro escrito por Woody Allen em parceria com Marshall Brickman.

Salma Nogueira.