
sábado, 8 de junho de 2013
quinta-feira, 10 de maio de 2012
A Cidade no Cinema

No filme
não presenciamos nenhum momento em que Mulligan tenha dificuldades para apreciar
o maravilhoso desjejum parisiense, ou mesmo um sequer instante em que este se
comporte de forma pouco ética, sobretudo quando cai nos encantos de Milo
Roberts (Nina Foch), a viúva rica que por admirar o trabalho do pintor, o qual
se mostra tão apegado a suas obras, por jamais acreditar que um dia venderia
alguma de suas telas, decide patrociná-lo. Tudo isso pelo simples fato de ser
um artista, habitante da encantadora Paris que tanto o comove. Situação
contrária a de seu amigo, o concertista de piano desempregado Adam Cook (Oscar
Levant), este sim, revela certo desprazer com a vida que leva na capital
francesa.
Ao
acompanhar o cotidiano, as preferências, gostos e fobias de Martín e Mariana (Pilar López de Ayala),
só podemos ter a certeza que ambos se completam, e esperar o momento em que o
encontro entre eles ocorrerá, e a vilania arquitetônica quase nos deixa sem
esperanças. Mas se a arquitetura e o urbanismo separam, o mundo virtual une e
renova nossas esperanças. Esse é o grande trunfo de “Medianeras”, fazer com que
o espectador se reconheça na realidade proposta pelo filme e imagine que o
mesmo pode se passar na sua própria vida. A proposta é atual e verossimilhante
ao contexto de cidade que conhecemos e as relações virtuais que estabelecemos,
a qual tem como grande vantagem o fluxo de informação e a infinidade de
conhecidos, que não se limitam mais ao seu bairro, escola, círculo familiar ou
de amigos, as possibilidades são indeterminadas, o mesmo não se pode dizer do
contado, limitado aos sentidos da visão e audição.

Salma Nogueira.
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Medianeras,
O Homem ao Lado,
Sinfonia de Paris
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Soul Kitchen
“Soul Kitchen”, filme de 2010 do diretor turco-alemão Fatih Akin (Conta a Parede; Do Outro Lado), é de um apuramento estético primoroso, que aliado a atuações descontraídas e pouco compromissadas com qualquer formalidade, dão o tom leve e bem humorado do filme. Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos) é o dono do restaurante que recebe o nome de “Soul Kicthen”, pois Zinos é um grande apreciador da música soul, gênero musical com influencia do rhythm and blues e do gospel, tal estilo surgiu entre as décadas de 1950 e 1960 entre os negros norte americanos. Tal apreço é facilmente detectado, não unicamente pela magistral trilha sonora que rege o filme do inicio ao fim, a qual não é unicamente composta pelo gênero soul e deve-se ressaltar a bela presença de músicas gregas, mas também pela vestimenta e pela decoração da residência em vão livre, de Zinos.
O grego com pouca prática culinária, ganha a vida com um cardápio a base de comida congelada, que ele próprio afirma não gostar, mas logra a satisfação dos clientes com pouco apuro gustativo que freqüentam seu estabelecimento diariamente. O restaurante emprega ainda os garçons Lutz (Lukas Gregorowicz) e Lucia (Anna Bederke), Zinos ainda “aluga” um pequeno galpão para o inquilino inadimplente Sócrates, que além que não pagar o aluguel, come a vontade no restaurante. Nesse contexto se desenrola um roteiro muito bem amarrado, cheio de altos e baixos que dão comicidade ao filme, como a proposta de Illias (Moritz Bleibtreu), irmão de Zinos, assaltante que cumpre pena em regime semi-aberto e precisa da ajuda do irmão de maneira a alegar que é um empregado (“de fachada”) do restaurante. Ou Shayn Weiss (Birol Ünel), chefe de cozinha contratado por Zinos quanto este fratura a coluna tentando deslocar a máquina de lavar louças que na verdade, as quebrava. Além de pendências financeiras com o governo, ainda há a insistência inconveniente de Thomas Neumann (Wotan Wilke Möhring) corretor imobiliário, ex-colega de escola de Zinos, que faz de tudo para prejudicar seus negócios, com o intuito de comercializar o prédio que abriga o restaurante que dá nome ao filme.
Shayn dá um novo significado ao nome do estabelecimento, “Soul Kitchen” ou comida para a alma, alterando não só o cardápio, mas também o público que freqüenta o lugar. Todos ligados ao restaurante têm outros planos na vida, ambições altas demais que justificam a falta de interesse em fixar-se ali de maneira mais estável, mas ao longo do filme, todos se revelam invariavelmente dependentes do espaço, pelas relações, sobretudo sociais, que ali se estabelecem. Lutz é músico, e utiliza-se gratuitamente do espaço para os ensaios com sua banda, Sócrates passa horas, dia e meses a cuidar de um barco que, ao que tudo indica, jamais deixará aquele galpão para singrar mar algum ou qualquer água que seja. Lucia alega estar destinada a ser pintora profissional, Shayn diz ter experiência suficiente para não querer administrar um restaurante e apenas na cozinha permanecer, e em meio a tudo isso, Zinos precisa encontrar alguém para gerenciar o lugar, que de maneira alguma ele pretende vender, para mudar-se a Xangai, ao encontro da namorada Nadine (Pheline Roggan).
Os problemas cercam o restaurante “Soul Kitchen” se misturando e confundindo com os problemas pessoais de Zinos, que por vezes parece estar em um beco sem saída. E Zinos, dança... Sim, porque assim recomendou a fisioterapeuta Anna (Dorka Gryllus), indicação da namorada Nadine, para ajudá-lo a amenizar as fortes dores de sente nas costas. A fotografia do filme é deslumbrante, tal qual a visão que Zinos tem da cidade alemã de Hamburgo, da janela de sua casa. A movimentação de câmera é de igual significância, original a ponto de acompanhar o ritmo da música que a banda de Lutz toca na primeira noite que o cardápio de Shayn é degustado com o mesmo respeito com que é preparado, e de dar um 360° nos irmãos Kazantsakis, que dançam sem se preocupar com o tempo que parece passar ao seu redor sem que os dois percebam. Por fim, “Soul Kitchen” é um filme que satisfaz a alma das pessoas que esperam mais do cinema, que ao fim do filme estão com uma gostosa sensação de bem estar, um leve sorriso no canto da boca, e um gostinho de quero mais enquanto acompanham os créditos dispostos de maneira original e criativa.
Salma Nogueira.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Meia-Noite Em Paris

“Meia-Noite Em Paris” nos conquista mesmo antes dos cinco minutos de projeção, mostrando uma Paris encantadora seja sob sol, chuva ou ao cair da noite, acompanhada ainda de uma trilha sonora tipicamente parisiense. E como se ainda fosse possível, o filme só cresce e nos envolve de maneira que os cem minutos de duração do longa, passam de maneira tão agradável que deixam um gostinho de quero mais. E aos amantes de arte em geral, sobretudo cinema e literatura, fica a certeza da competência de Woody Allen, ao escrever e dirigir um filme encantador e cheio de surpresas, que só nos deixam mais ansiosos para as cenas que se seguem.

Após uma longa seqüência de cortes que nos permitem passear por lugares encantadores da cidade de Paris, Woody Allen nos coloca diante da paisagem retratada nas deslumbrantes pinturas de Monet e Gil visita ainda por duas vezes a escultura em bronze “O Pensador” de Rodin. Talvez por se identificar com uma das esculturas mais famosas do mundo, que pretende retratar um homem em meditação que luta contra uma poderosa força interna. E como em um conto de fadas as avessas, após a meia-noite, Gil pode reviver a Paris da década de 1920, encontrando figuras as quais admira como os escritores Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e sua esposa Zelda Fitzgerald, o músico Cole Porter, os surrealistas Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray, o pintor Pablo Picasso e sua musa e amante Adriana (Marion Cotillard), ex-amante dos pintores Modgliani e Braque, diga-se de passagem.

Salma Nogueira.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Feliz Natal

Por colocar em foco um drama familiar, os mais pessimistas podem concluir que a intenção é demonstrar a família como uma instituição falida e desgastada, ledo engano. A família é colocada aqui, como uma metáfora da sociedade, pessoas que de alguma maneira devem coexistir, devido a convenções sociais ou mesmo infelizes necessidades, mas apenas se suportam. Cada personagem apresenta seu drama próprio e todos são fundamentais na obra. A mãe (Darlena Glória) que busca no álcool a fuga de uma vida infeliz, demonstrando também, por vezes, uma relação insestuosa com o filho Caio (Leonardo Medeiros), personagem condutor da trama, dono de um ferro velho no interior, que volta a cidade para rever a família e os amigos noa noite de natal. Tal contato nos revela o quanto Caio levava uma vida desregrada no passado, buscando no presente, a remição consigo mesmo. Caio apresenta um claro conflito com o pai (Lúcio Mauro), o qual relaciona-se com uma pessoa mais nova, de maneira a buscar uma reafirmação pessoal, mas sem dar muita importância a essa relação, demonstrando ainda uma forte aversão à ex-mulher. Há ainda, os dois irmãos de Caio e suas respectivas famílias, compostas por suas esposas e filhos, dando mais força aos conflitos interpessoais desenvolvidos ao longo dos 100 minutos de projeção.

*Texto dedicado a Dario Façanha.
Salma Nogueira.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Sonho de Cassandra

Com uma filmografia tão extensa, Woody Allen se reinventa a cada novo filme e tem a total liberdade de experimentar e ousar o quanto quiser, poucos tem essa vantagem, e ele sabe utilizá-la muito bem, isso é inegável. A seqüência “Match Point” (2005), “O Sonho de Cassandra” (2007) e “Vicky Cristina Barcelona” (2008), são filmes com extrema carga emocional, e no que diz respeito a construção de personagens, Woody Allen é mestre. Já em seus dois últimos filmes, “Tudo Pode Dar Certo” (2009) e “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (2010), o ar sombrio que rondava seus filmes desde seu primeiro longa rodado em Londres, dá lugar a um humor leve e delicado, presente no cotidiano de personagens, que de uma maneira ou de outra, buscam a felicidade, querem acertar, aprender com os erros, são como nós, espectadores.

Mesmo com todas as diferenças e a seu modo, os irmãos padecem do mesmo mal, querem mais do que podem ter. E isso se agrava à medida que Terry perde o controle sobre o vício do jogo e Ian deixa-se envolver cada vez mais por Angela. Como única saída os irmão buscam a ajuda do bem sucedido tio Howard (Tom Wilkinson), que de tão mencionado até nos remete ao filme "Meu Tio da América" (Alain Resnais, 1980), parecendo esse mais um ideal, uma utopia do que um ser real de fato. Tão real que dá rumos significativos e perturbadores a vida dos irmãos Ian e Terry.
Obtendo sucesso de maneira ilegal, Howard teme ser desmascarado e sentindo-se ameaçado, em troca da ajuda financeira proposta pelos sobrinhos, Howard pede que esses eliminem Martin Burns (Philip Davis), o sócio que ameaça sua credibilidade, frente aos negócios. É então que Woody Allen começa a questionar os conceitos de moral das personagens e os nossos próprios, aliando isso à aceleração rítmica do filme. E como Terry diz ao irmão: "Isso é um caminho sem volta". Os caminhos são distintos e irreversíveis de fato, o que nos leva a um desfecho de certa forma, sombrio e pessimista, mas também único e inesperado. É cinema, é Woody Allen e só isso já são pré-requisitos para não esperar nada menos que um ótimo filme.
Salma Nogueira.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Volver

Profundo admirador do universo feminino, Almodóvar sempre nos coloca diante de mulheres extremamente fortes e independentes. Sempre buscando meios de homenagear as mulheres em seus filmes, afirmando que sem elas, suas obras não existiriam, admitindo ainda que sua vocação é ser o primeiro espectador delas. Em “Má Educação” ele faz isso, por meio das personagens homossexuais, que travestidos de mulher, expressão seu eu feminino reprimido. Isso, sem falar das famosas cores de Almodóvar presentes desde a cenografia, às vestes e maquiagens das personagens, definindo personalidades distintas e individualmente fortes.

Com um roteiro brilhante do próprio Almodóvar, ele nos mostra que a morte pode sim dar caminhos inesperados a vidas talvez desinteressantes. “Volver” desenvolve o que Almodóvar faz de melhor, nos mostrar dias extraordinários, no cotidiano de mulheres totalmente possíveis. Abusando da sensualidade e do poder que suas atrizes têm de conquistar o público, Almodóvar nos emociona mais uma vez, com uma história cruel, como várias que ele imortalizou, mas que certamente poderiam ser reais.
Salma Nogueira.
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