segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desconstruindo Harry


    
  

   Com forte teor surrealista “Desconstruindo Harry” (Desconstructing Harry) de 1997 é mais uma obra memorável na brilhante carreira de Woody Allen. Filme que deu ao cineasta sua décima terceira indicação ao Oscar de melhor roteiro original, mas que naquele ano acabou perdendo o título para o filme “Gênio Indomável”. Woody Allen mais uma vez dá um show de direção e interpretação - isso, claro, para os fãs do judeu tagarela, hipocondríaco, intelectual inseguro, que marca sua carreira como ator em seus filmes - mas o que dá o ar de genialidade a obra, é mesmo o roteiro, o que justifica a indicação.
   Harry, interpretado pelo próprio Woody Allen, é um escritor bem sucedido, que utiliza os acontecimentos de sua própria vida e conseqüentemente das pessoas que vivenciaram tais acontecimentos com ele, como “inspiração” para a construção das histórias de seus livros. Porém, além do exagero empregado em algumas passagens das histórias desenvolvidas por ele, em comparação ao episódio de sua vida que a inspirou, a diferença entre a ficção e realidade dos fatos, se dá pela simples troca do nome das personagens, o que é facilmente detectado pelas pessoas que tem algum conhecimento dos fatos reais.
    Com um elenco crescente de celebridades que nos surpreendem a todo o momento, como Elizabeth Shue, Billy Cristal, Tobey Maguire, Demi Moore, Stanley Tucci, entre outros, Woody Allen cria uma história fantástica, misturando realidade e ficção, colocando os personagens reais que inspiraram as passagens de seus livros de frente com as personagens fictícias, ao relembrar o que aconteceu de fato em sua vida e por vezes deixa-se envolver por acontecimentos surreais que acometem seus personagens, como o caso o homem que fica embaçado, interpretado por Robin Williams. Harry em meio a um bloqueio criativo, ainda busca uma companhia para uma homenagem que ele deveria receber no colégio do qual já fora expulso.
    Woody Allen visivelmente consciente e à vontade, brinca com um roteiro encantador que nos permite visualizar o improvável, o encontro entre o criador e a criatura. Harry, o criador, um ser extremamente inseguro e perturbado ao se deparando com todo o mal que pode de fato ter causado as pessoas que inspiraram suas obras, as quais o colocam de frente a personagens extremamente conscientes e maduros, que na verdade, são o próprio Harry. Um Harry talvez, perdido em seu inconsciente. “Desconstruindo Harry”, que na época de seu lançamento, não foi bem visto pela crítica, é uma obra para ser admirada e revista sempre, de um humor ácido e de constantes reflexões sobre morte, sexo, religião... Temas recorrentes na admirável e diversificada carreira de Woody Allen.
      


 Salma Nogueira.

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